Bonés e Sombreros 🧢
NewZ da NAZA — Vol. 163
“O cara arrogante é aquele que usa um chapéu maior que a cabeça, tão grande que cobre os próprios olhos”.
Encontrei uma prima no Centro da cidade para uma reunião. Na hora de ir embora, ela me ofereceu uma carona. Fomos até o estacionamento onde estava o carro dela, e quando vi ela estava falando com o manobrista como se fossem velhos conhecidos. Na hora de pagar, ela ofereceu mais, depois de se certificar que o extra iria para ele. Ela nem é uma pessoa que tem dinheiro sobrando, mas generosidade não é espelho de extrato bancário.
A frase do início deste texto foi dita pelo pai do Marcelo Gleiser, quando o físico ainda era criança. Se a minha prima fosse a pessoa usando o chapéu, ela daria para a primeira pessoa que o elogiasse. O mais provável é que ela não estivesse usando nada ou apenas um simples boné, para conseguir enxergar todos à sua volta.
Com certeza ela não lembra daquele estacionamento. Para ela foi só mais um dia, nada demais, mas eu nunca esqueci. Passei a tê-la como régua, e noto que sempre posso melhorar. Humildade e generosidade nunca são demais.
Paula
Galpão da Lapa 🖼️
O Galpão da Lapa, espaço que abriga parte da coleção de arte do casal Andréa e José Olympio Pereira, começou um novo capítulo; está aberto ao público, através de visitas guiadas conduzidas por um time de educadores. Esta exposição, em que estão representados 65 artistas, estará em cartaz até março de 2027.
As visitas acontecem às quintas e sábados — é necessário agendar por aqui — e duram entre uma hora e noventa minutos; a variação do tempo acontece porque cada percurso é único, definido em conjunto entre o guia e o grupo. O nosso trajeto foi guiado pela Amanda, que nos conduziu pelas mais de 100 peças expostas; a coleção, que começou há quase 40 anos, tem ao todo mais de 2000 obras. Adoramos a liderança dela; as informações que ela nos passou foram essenciais para entender o todo, ao mesmo tempo em que tivemos uma certa liberdade para explorar o espaço no nosso tempo. Encontrar esse equilíbrio em programas em grupo não é óbvio.
A mostra atual, Constelações em trânsito: uma escuta cartográfica, foi curada pela Luisa Duarte. Ela fez um recorte da coleção, e dividiu sua mostra em três núcleos: Arquiteturas do Inconsciente, Geometrias do Sul, Topologias do Orgânico. Obras que remetem ao esotérico e a universos paralelos como as de Denilson Baniwa e Alex Cerveny coexistem com trabalhos mais carnais, como os de Marcia Falcão e Adriana Varejão; é incrível ver como eles conversam entre si. Na minha visão, o ponto alto da exposição foi justamente a curadoria; as obras são impactantes por si só, mas a forma como elas estão arranjadas, a história que elas contam, está impecável.
Quero maiZ: enquanto a maior parte dos trabalhos do Galpão foram produzidos nas últimas décadas, a coleção particular em exposição na Galatea contém obras que datam de 1880 a 1963. A história por trás da coleção é linda e inusitada; o casal que montou o conjunto adquiriu as obras como forma de se presentear em seus aniversários de casamento, e essa é a primeira vez que o todo é apresentado ao público. Memórias Particulares: Oito Décadas de Arte Brasileira apresenta 39 quadros, de artistas como Guignard, Di Cavalcanti, Pancetti, Portinari e Volpi. Fica em cartaz até dia 25 de julho, vale a visita.
Aos Pés da Letra de Gregório Duvivier 📚
Ri alto com o novo livro de Gregório Duvivier, que nasceu de sua brilhante peça O Céu da Língua. Uma especie de dicionário, Aos Pés da Letra é uma grande divagação acerca de algumas palavras da nossa língua. "Calvo”, “yoga” e “cringe” são apenas alguns dos verbetes que Gregório disseca de forma deliciosa, nos fazendo dar risada, ao mesmo tempo em que aprendemos alguma coisa sobre a origem de nossas palavras (é pura invenção, por exemplo, que “forró” vem do inglês “for all” — o mote tem sua raiz em “forrobodó”, que significa “baile popular”). É um livro leve, gostoso, para ler em uma sentada, e depois pegar aleatoriamente de vez em quando. Mais uma prova da genialidade de Gregório, que faz a gente se apaixonar pela maluquice que é a nossa língua.
Cena 🍽️
O Cena, novo restaurante do hotel Emiliano, mal abriu e corri para conhecer; fiquei curiosa para ver o que um chef tão jovem — Vinicius Pires tem apenas 29 anos, passou 6 deles trabalhando no Evvai, e ganhou a etapa nacional do Bocuse D’Or este ano — estava aprontando em um dos melhores hotéis da cidade.
De cara, me incomodei um pouco com o salão; esperava um ambiente mais aconchegante, menos frio. Dito isso, o bom serviço e os pratos elaborados com bastante técnica compensaram.
Como o cardápio não é muito grande, conseguimos provar quase tudo. Começamos com aperitivos — gougères e rabanada — e continuamos com as entradas; coração de pato, flan de mariscos e tomates. Esses dois últimos foram eleitos os melhores pratos do jantar. Seguimos com o agnolotti de alcachofra, a massa de mandioquinha com vieiras e tucupi, o flat iron e o peixe com couscous. Fica claro, só por observar os ingredientes, que o chef trouxe para a sua cozinha influências dos quatro cantos do mundo; ele não se prende a nenhuma região ou técnica. O que os pratos tem em comum são a criatividade, uma certa leveza, e ousadia. Ao final da noite, ficou evidente que tudo ali é resultado de bastante estudo; Pires sabe o que está fazendo, e está no caminho certo.
Agenda da NAZA 🚀
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Amei a história da sua prima. Essa coisa de alguém ter o poder ampliar a nossa referência, subir a régua, é o que faz a diferença na vida. Imitemos os generosos sempre! xxx